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segunda-feira, 3 de maio de 2010

LARISSA SABE TUDO


O marido estava em cima da hora de ir para o trabalho e não conseguia encontrar a bendita chave do carro. Desesperado, recorreu à mulher que estava entretida em seus afazeres domésticos.
_ Benhê! Você viu a chave do carro? – berrou ele da sala para a mulher que estava na cozinha.
Ela foi atendê-lo na sala, enxugando as mãos no avental.
_ Ontem a noite eu vi essa chave em cima do criado mudo do nosso quarto.
_ Também tenho certeza que botei essa chave lá, mas hoje eu vou procurar e cadê?
_ com a graça de Deus nós vamos encontrar. Você procurou no chão? Ela pode ter caído embaixo da cama.
_ Procurei em tudo que é lugar e nada.
_ Vou procurar de novo. Mulher tem um olho mais atento.
Ela revirou o quarto e nem sinal da chave.
_ São Longuinho, São Longuinho, se eu achar essa chave eu dou três pulinhos.
_ E aí, benhê, encontrou?
_ Ainda não. Mas eu vou achar logo, logo.
_ Por que cê tem essa certeza?
_ Já fiz promessa pra São Longuinho e ele nunca me deixa na mão.
_ Lá vem você com essas bobagens
_ Bobagem não. Só porque você é ateu convicto, não precisa abusar da minha fé.
_ Não tô abusando. Só acho que seus santos tem coisas muito mais importantes pra fazer do que procurar uma chave perdida.
_ Isso é o que você pensa.
Meia hora depois ainda estavam envolvidas nessa procura.
_ Por que você não vai pro trabalho de ônibus? – perguntou ela.
_ Nem pensar. Meus colegas já pegam muito no meu pé, se eu andar de ônibus, então...
_ Só hoje, até a gente encontrar essa chave.
_ Hipótese descartada.
_ Você já ouviu falar nos duendes, que escondem as coisas só pra matar a gente de raiva.
_ Lá vem você de novo com essas histórias. Nem a Larissa que tem 5 anos, acredita mais em duende. Mas sabe de quem é a culpa? Da televisão. No meu tempo não tinha televisão por isso eu fiquei acreditando em papai noel até os 15 anos. Quando descobri que ele não existia, chorei o dia inteiro.
_ É isso!
_ Isso o quê?
_ A solução do nosso problema é a Larissa.
_ Você acha que ela perdeu essa chave?
_ Não diria tanto, mas ela deve saber de alguma coisa.
A suspeita foi trazida para a sala e interrogada pelos dois.
_ Larissa, por acaso você não teria visto a chave do carro do papai? Ela é mais ou menos desse tamanho. – disse ele mostrando o tamanho da chave.
_ Não vi nada.
_ Você tem certeza? De vez em quando você ficava brincando com ela. Será que você não esqueceu em algum lugar?
_ Já falei que não, papai.
_ Larissa, isso não é brincadeira. O papai precisa ir trabalhar mas sem a chave não tem jeito.
_ Se o senhor quiser, pode ir com a minha bicicletinha, ela tem rodinha, não tem perigo de cair.
_ Eu to falando sério.
_ Eu também.
_ Se você tiver perdido, pode dizer que eu não vou raiar com você. Eu juro.
_ Quantas vezes vou ter que dizer? Parece criança que não ouve o que a gente fala. – respondeu ela com ar de superioridade.
_ Olha quem fala, nossa moça.
_ Posso não ser uma moça, mas não ficou nessa encheção.
_ Ah, não? E quando você quis passar as férias na casa de sua avó? Deu birra até nós deixarmos.
_ Só quando é do meu interesse.
_ Se você tivesse visto, ia ganhar um sorvete deste tamanho.
_ Não adianta fazer figuinha.
_ Tem certeza que não viu?
Larissa ficou calada.
_Papai é um mentiroso. – disse Larissa.
_ Por que mentiroso, filha?
_ Prometeu me levar no shopping hoje e agora quer ir trabalhar.
_ Não posso faltar com a minha obrigação na empresa.
_ E com a sua obrigação de pai, pode? Só porque eu sou criança fica me prometendo coisas impossíveis.
_ Desculpa filha, juro que não faço mais isso.
_ Quando eu for maior, quero morar sozinha, ser independente. E não acreditar mais na promessa de ninguém.
_ Chega, não precisa passar mais sabão em mim.
_ Quando eu tinha 3 anos prometeu me levar no programa da Xuxa, mesmo sabendo que isso era impossível.
_ Impossível por quê?
_ Por causa dos gastos e da distância.
_ Eu ainda te levo lá. Eu prometo.
_ Não prometa o que não pode cumprir.
O pai saiu cabisbaixo:
_ Não quer mais a chave?
_ Não. Eu vou de ônibus.
_ Aqui a chave seu bobo, - disse ela tirando a chave do bolsinho da blusa – escondi porque não queria que o senhor fosse trabalhar, mas já que vai de qualquer jeito.
Ele a pegou nos braços e fez mais uma promessa?
_ Eu juro que no final de semana te levo no shopping e no ano que vem te levo no programa da Xuxa.
_ Ah, papai, o senhor não muda nunca e é por isso que eu te amo tanto.


Gilberto Carlos

sexta-feira, 30 de abril de 2010

UM POUCO DE ATENÇÃO


Carla tinha 15 anos, era uma adolescente como outra qualquer, com todos os seus hormônios borbulhando de vontade de namorar e aproveitar a vida.

Seu pai, Inácio, não concordava com todo esse assanhamento e achava que a filha ainda era uma menina.

Todas as noites era o mesmo drama. Ela querendo sair com os amigos e seu pai não deixando nunca.

_ E aí, velho, vai dá pra me liberar pra eu sair com a galera, essa noite?
_ Que palavreado é esse Carla? Não está mais freqüentando a escola?
_ Tô, mas acho aquilo uma chatura. Eu sei mais que todos os professores juntos.
_ Quem te disse isso?
_ A galera.
_ Quem é galera?
_ Uns colegas da escola.
_ Eles disseram que você é inteligente pra te comprar. Pra atrair você pra gang deles.
_ Me respeita, velho. Nós não temos uma gang não. Só queremos aproveitar a vida.
_ Não me chame de velho! Cadê o respeito? A galera pegou emprestado?
_ Por que você não quer encarar a realidade? Seu espelho quebrou? A idade chega pra todo mundo, querendo você ou não.
_ Eu posso não ser mais um rapazinho, mas não precisa ficar me jogando isso na cara o tempo todo.
_ Desculpa aí, foi mal.
_ Não ainda pedir desculpas. O arrependimento tem que vir do fundo do coração e acho que esse não é o seu caso.
_ Tá querendo insinuar que eu não gosto de você?
_ Eu tenho minhas dúvidas.
_ Já sou uma moça e tenho que largar a barra de sua calça. Não posso ficar debaixo de suas asas o tempo todo. O mundo é uma selva, a gente tem que estar preparado pra tudo. Você não vai viver para sempre.
_ Porque você não me chama de senhor, como todo filho respeitador?
_ Senhor tá lá no céu. Ninguém aqui embaixo merece ser chamado assim.
O silêncio pairou na sala por alguns segundos.
_ E aí, vai me liberar? - perguntou ela.
_ Você fala como se fosse uma prisioneira.
_ Não sou, mas me sinto como tal, numa prisão de luxo, feito aquelas dos políticos.
_ Eu não quero que você fique presa aqui, mas também não quero que você saia com aquela turma barra pesada.
_ Nenhum deles é barra pesada.
_ Ah, não? Então porque usam aquelas roupas e tem tantas tatuagens espalhadas pelo corpo?
_ Aquilo é um estilo devida.
_ Um estilo meio alternativo pro meu gosto.
_ Você está sendo preconceituoso, fazendo um julgamento precipitado sem antes conhecê-los melhor.
_ Não conheço e nem faço questão de conhecer.
_ Viu, por isso que é difícil conversar com você, que não cede um triz. Não procura me compreender.
_ Então empatamos. Você também não procura entender as razões de eu te querer sempre perto de mim.
_ Eu sei essas razões. Depois que mamãe morreu naquele maldito acidente, você está sobrecarregado com essas funções de pai e mãe.
_ Você não faria o mesmo? Quero apenas ter proteger, pois eu tenho muito medo de te perder.
_ Você não vai me perder. A mamãe morreu, mas eu ainda estou viva e como vivente eu necessito ver as coisas, conhecer lugares, eu preciso ser feliz.
_ Filha, você vai fazer tudo isso, mas não precisa tanta pressa. O mundo não vai acabar amanhã.
_ Quem te garante?
_ Então o problema é esse? Você tem medo de morrer sem ter aproveitado o máximo que podia.
Os olhos de Carla encheram-se de lágrimas.
_ E não foi isso que aconteceu com a mamãe?
_ Me abraça, filha. Sei que nessa idade vocês precisam muito de atenção.
_ Mais do que qualquer outra coisa.
_ Aquilo que aconteceu com a sua mãe foi uma fatalidade. Não vai acontecer com você. Não precisa ir com tanta sede ao pote. Você tem a vida inteira pela frente.
_ O tempo passa depressa. Quando menos se espera já não há mais tempo... pra nada.
_ Eu já estou do meio pro fim, como dizia minha avó, porém você tem todo o tempo do mundo. Pode errar e tentar de novo, quantas vezes for necessário.
Carla abaixou a cabeça e ficou calada.
_ Ainda quer sair?
_ Hoje, acho que não. Vou pensar um pouco na minha vida.
_ Ta parecendo uma velha, falando desse jeito. Você vai sair sim, mas comigo. Vamos ao cinema, há um filme brasileiro ótimo sendo exibido.
_ Você compra pipoca pra mim?
_ É claro.


Gilberto Carlos

segunda-feira, 19 de abril de 2010

FIM DE CARREIRA


Gabriela Ferraz senta-se triste em seu surrado sofá da sala, lembrando-se do glamour de sua mansão do passado, quando toda a alta sociedade do Rio de Janeiro ia procurá-la. Alguns apenas com o interesse de sair nas colunas sociais, enquanto outros diziam ser seus verdadeiros amigos. O dinheiro compra todos os amigos do mundo. Agora vive numa casa pobre com apenas três cômodos, um banheiro e alguns móveis velhos.

Pensa em sua carreira de 50 anos como atriz e se entristece ao lembrar que o último trabalho a que foi convidada foi há dez anos. Tinha corpo formoso e rosto delicado. Todos os homens davam um braço se fosse preciso para desfrutar de sua companhia nos bailes.

Papel de protagonista nos melhores dramas do teatro brasileiro. Um troféu de melhor atriz por uma tragédia shakespeariana permanece em cima da estante apanhando poeira. Se alguém pelo menos se interessasse em comprá-lo. Podia usar o dinheiro para fazer as compras no supermercado. A despensa está ficando vazia.

Ninguém se interessa pelo passado. O povo não tem memória. Seus fãs já morreram todos. Se pelo menos aparecesse um convite para atuar numa novela, mesmo que em papel pequeno. O último comercial que fez foi para uma empresa de fraldas geriátricas. Que vergonha! Uma atriz do seu quilate se prestar a esse papel vergonhoso. Ainda bem que seus fãs já estão quase todos mortos, pois se alguém a visse daquele jeito não acreditaria.

Precisa pagar as contas como qualquer ser humano. A aposentadoria mal dá pra comer. As pessoas pensam que quando um ator está há muito tempo sem trabalhar, ele está tirando férias, mas onde já se viu férias tão longas?

Se soubesse que passaria tantas necessidades agora, não teria esbanjado no passado. Tanto dinheiro jogador fora com coisas desnecessárias. Viagens intermináveis pelo mundo afora, roupas exclusivas de estilistas famosos, carros importados...

Como num sonho ela vê todos os seus bens voando pela janela, para pagar as dívidas. Uma a um, eles se vão, ficando apenas aquela pequenina casa, naquele bairro pobre.

Quase não recebe visitas. É melhor assim, os visitantes só dão despesas extras e ela não pode se dar a esses luxos.

O telefone toca e a acorda de seu sonho.

_ Não sei como ainda não cortaram o telefone. Seis meses de atraso. Devem estar esperando fazer aniversário de um ano.

De repente, uma ideia maravilhosa passa por sua cabeça: um convite de trabalho! É isso: um trabalho, um produtor está ligando para convidá-la para uma peça teatral. Treme de felicidade só de imaginar. Esboça um sorriso, como se pudesse ser vista através do aparelho telefônico. Imagina a fama novamente lhe rondando. As pessoas lhe pedindo autógrafos. O dinheiro novamente em sua conta bancária. Pensa em se mudar daquele muquifo onde mora para um lugar mais confortável, onde possa receber alegremente os diretores e colegas atores de seu novo trabalho. Um carro com motorista particular para ir aos compromissos dignamente e roupas novas, pois as suas estão em frangalhos.

O telefone continua tocando e ela sonhando com esse mundo perfeito criado por ela mesma em sua sonhadora cabeça. É melhor atender antes que desistam de lhe dar o papel principal nessa mais nova produção do teatro brasileiro.

Coloca uma gota de perfume vencido, daquela época gloriosa, atrás da orelha, imaginando a limusine encostando na porta de sua casa. O chofer lhe abrindo a porta gentilmente com um sorriso verdadeiro e gratificante no rosto por estar servindo a gloriosa Gabriela Ferraz, estrela de 60 filmes, 40 peças de teatro, 20 novelas de rádio e 15 de televisão, 10 foto-novelas e dezenas de especiais.

O telefone ainda toca. Ela resolve atender finalmente depois de se maquiar toda.

_ Alô – diz alguém do outro lado.
_ Alô.
_ Quem fala?
_ A famosa atriz Gabriela Ferraz.
_ Gabriela, o quê?
_ Gabriela Ferraz. A preferida do diretor Nelson Pereira dos Santos. Você contrata para qual companhia de teatro?
_ Companhia nenhuma, minha senhora.
_ Então por que me ligou?
_ Esse não é o telefone do disque sexo?
_ Me respeite. Quem pensa que eu sou?
_ Desculpe então. Foi engano – diz desligando o telfone
.